Novos Mártires São Paisios e Santo Avakum (Habacuque), Diácono da Sérvia

17 de dezembro — Calendário Juliano

Avakum nasceu em 1794 e foi criado no Mosteiro Mostanica, onde seu tio era pai espiritual. Ali foi tonsurado e feito diácono aos 18 anos pelo Metropolita José.

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Em 1809, os monges tomaram parte em uma revolta contra os janízaros que ocupavam Belgrado [a rebelião é conhecida como Janciceva Buna] e dado o insucesso tiveram de fugir para o Mosteiro da Anunciação em Trnava, onde São Paisios era abade.

Após o colapso da revolta de Karageorge, em 1813, os turcos deram início a um reino de terror. A população mais uma vez se rebelou, com participação dos monges de Travna no dia da Festa da Santa Cruz, mas novamente foram esmagados pelos opressores. Muitos prisioneiros foram enviados para o Paxá Suleiman em Belgrado, entre eles Paisios e Avakum.

Os turcos ofereceram liberdade para quem se revertesse ao Islã, e alguns aceitaram a oferta. São Paisios foi obrigado a carregar a própria estaca em que foi empalado, e enquanto era supliciado e adentrava o Reino dos Céus clamava ‘Slava Bogu’ [Glória a Deus]. Os turcos pressionaram Avakum para que apostatasse seguindo o exemplo de um de seus pais espirituais anteriores, Gennadio, que o instava a fazer o mesmo junto com a própria mãe do diácono — ele agradeceu à mãe pelo leite que o alimentou mas não pelo conselho, dizendo que ”um sérvio pertence a Deus e espera a morte com alegria”.

Avakum respondeu que era um guerreiro de Cristo e que preferia morrer a negá-lo. Foi condenado a carregar a própria estaca em que seria executado, assim como São Paisios. Quando os turcos tentaram demovê-lo de perder sua vida na juventude, ele riu-se e perguntou se os turcos também não morreriam. Quando lhe responderam que sim, o santo diácono respondeu, “muito bem então, quando mais rápido eu morrer, menos pecados terei cometido”.

Por sua coragem, os turcos decidiram não empalá-lo, e o executaram com um golpe de espada no coração. Santo Avakum adentrou o Reino dos Céus em 27 de janeiro de 1815.

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Rodrigo Gurgel: A beleza que salva

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Tenho reencontrado, em algumas listas com os melhores lançamentos de 2015, o livro “A beleza salvará o mundo”, de Gregory Wolfe, que tive a grata alegria de indicar à Vide Editorial.

Não me lembro como descobri “A beleza salvará o mundo”. A Internet é floresta densa, repleta de sendas obscuras, semelhantes às de uma história infantil, nas quais, de página a página, de link a link, nos perdemos sem conseguir refazer o caminho inicial.

Numa dessas pesquisas aleatórias, cheguei ao site de Wolfe e deparei-me com esse título comum — ao menos para quem se recorda de Dostoiévski — e, principalmente, com o subtítulo que sintetizava uma de minhas constantes preocupações: “Recuperando o humano numa era ideológica”.

A identificação cresceu a cada ensaio de Wolfe que descobri. E se tornou plena ao ler algumas das páginas do livro, gentilmente fotografadas por uma amiga que reside nos EUA.

O resultado está, agora, à disposição de todos — e espero que “A beleza salvará o mundo” se transforme, no Brasil, no que ele já representa para muitos leitores de língua inglesa: um guia para os que acreditam, como T. S. Eliot, que “a vantagem essencial de um escritor é não ter um mundo maravilhoso com que lidar. É ser capaz de enxergar além tanto da beleza quanto da feiura; ver o tédio, o horror, a glória” — pensamento que Wolfe considera a “extensão natural da profecia de Dostoiévski”.

Há muitos elementos que merecem atenção nos ensaios que compõem o livro — e abordei alguns dos principais no Prefácio que fui convidado a escrever —, mas o ponto essencial, decorrente do que citei no parágrafo anterior, é o comportamento conservador criticado por Wolfe. Aluno de Russell Kirk, o autor não teme afirmar que “a maioria dos conservadores pensa na cultura como um museu, e não como uma continuidade orgânica. Eles são todos a favor da promoção dos clássicos, mas quando se trata de cultura contemporânea, simplesmente se eximem”.

De fato, canso de ver, no meio conservador, preconceitos em relação à arte. Muitos conservadores estão apegados a uma visão simplista e superficial da realidade — e chegam mesmo a enaltecer uma estética rasteira, inócua repetição do passado, como se a arte que recusa a pauta niilista, formalista e solipsista só pudesse ser a cópia rebaixada de Homero, Virgílio ou Dante. Ou, ainda pior, devesse se restringir a uma função meramente catequética.

Esse comportamento preconceituoso produz conseqüências assustadoras, como jovens que se negam a ler Hemingway, Kafka ou James Joyce, alegando a busca de uma suposta pureza, só encontrável nos autores que tenham recebido, em alguma época, um ‘Nihil obstat’.

Na verdade, dar as costas à cultura moderna — ou, como afirma Wolfe, “deixar-se desesperar sobre o nosso tempo” — é uma forma covarde de jogar essa mesma cultura nos braços insaciáveis do materialismo, de sucumbir à estreiteza do pensamento politizado e ideológico, de se tornar, citando Wolfe, um “discípulo involuntário de Marx”.

O caminho proposto por Wolfe é aquele seguido por grandes escritores, como T. S. Eliot, Evelyn Waugh, Flannery O’Connor, Susaku Endo, Nathaniel Hawthorne, Walker Percy e tantos outros: não se entrincheirar na sua própria fortaleza, não se entregar a um tipo de filistinismo que recusa a cultura do seu próprio tempo sem oferecer uma alternativa, sem se predispor ao diálogo.

Diálogo, aliás, que inquestionáveis defensores da ortodoxia católica, como o cardeal Leo Scheffczyk, souberam fazer com sucesso. Leia-se, por exemplo, de Scheffczyk, “O Homem Moderno” (“Der moderne Mensh vor dem biblishen Menschenbild”), e veja-se como o autor formaliza a crítica da “perda do humano na literatura moderna” — mas também dialoga com os autores que critica, sempre disposto a encontrar “notáveis pontos de luz” em cada um deles. Ou, se preferirem, leiam a análise que Henri de Lubac faz de Dostoiévski em “Le drame de l’humanisme athée”.

A necessidade de um novo humanismo cristão é urgente inclusive para se contrapor aos religiosos secularistas e laxistas, que se apressam, como afirma Wolfe, a “batizar cada tendência secular que passa”, a aceitar qualquer modismo esquerdista sem reflexão, a não ser o filtro de um religiosidade neopagã e sentimentalista — e, portanto, vulgar em todos os sentidos.

O caminho que Gregory Wolfe propõe não é simples, mas grandes artistas o realizaram, quando se dispuseram a “dramatizar os conflitos de seu tempo e incorporar significado em suas obras de maneira profunda”.

Como afirmo no final do meu Prefácio, enquanto lemos Wolfe somos atingidos, muitas vezes, pela suspeita de que ele tenta unir realidades incompatíveis. Mas tal impressão revela-se infundada sempre que ele repete a decisão de não aceitar passivamente o mundo pós-moderno e reafirma o desejo de transformar fé e arte num “traje inconsútil”. Caso a caso, Wolfe segue a máxima paulina: “Discerni tudo e ficai com o que é bom”.

‘Pro-Life’, uma auto-crítica

Lembro de dizer com todas as letras que não considero a opinião de um conservador sobre o aborto uma coisa séria se ele se diz ‘pró-vida’ na concepção, mas adere à idolatria à repressão estatal contra as crises sociais e humanitárias que abatem as crianças e adolescentes pobres. Se alguém se compromete com a defesa da vida na concepção, deve se comprometer com ela até o fim, incluindo nas defesas de políticas públicas de educação, saúde, esporte, emprego.

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Talvez haja certo malthusianismo nessa proposta e alguns sintomas de progressismo, mas não importa. Nenhuma política que um conservador assuma pode renegar, virar as costas para essas questões fundamentais, porque elas estão na base do cristianismo.

Cristo Se ENCARNOU por nós. Nasceu, viveu nossa vida como sua, sofreu, morreu e ressuscitou, mas na Sua morte Ele se tornou pecado por nós. Além da sua identificação total com o ser humano, até no pecado (não pecou, mas se tornou pecado por nós), Ele nos dá a indicação precisa do Caminho a ser trilhado pelos Seus filhos, na Sua Igreja. A nossa jornada cristã tem de ser de identificação total com os sofrimentos de toda a humanidade, não de uma humanidade em geral, uma ideia abstrata de homem e de coletividade de indivíduos, mas de uma realidade concreta de homem, de pessoa, pessoa com um rosto a quem se ama não com sentimentos apenas, mas com atitudes concretas e amor, perdão, compaixão. Suportar as cruzes significa carregar as próprias cruzes e as cruzes de cada um de nossos irmãos, não acima deles, mas com eles. É estar aberto ao outro, ao evento aberto e total da vida do outro que se derrama na minha.

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Li uma história verídica sobre uma mulher que ‘escolheu’ o aborto. Não houve manifestações abortistas de apoio a ela, mas os conservadores se eximiram, já que ela virara uma ‘assassina’, mas um conservador em particular, um senhor católico a buscou na clínica de aborto, lhe deu comida, roupa, a levou a um abrigo para mulheres em situações semelhantes de abandono social, psíquico, moral, mantido por sua paróquia. Lá ela encontrou um lar, apoio psicológico especializado, auxílio espiritual. O que ela não encontrou lá? Críticas veladas, sarcasmo, dedos acusadores, ofensas, humilhação. Ela conheceu Cristo ali.

Não é assim que trabalham nossos ‘pró-vida’. Em vez de oferecerem um amor real, concreto, autenticamente cristão para mulheres reais em qualquer circunstância, como exige o Evangelho… eles medeiam seu cristianismo por ‘escolhas pela vida’. Em vez de compreender encarnacionalmente os dramas estruturais, a complexa rede social de misérias e humilhações com que se debatem essas mulheres, adotam uma posição a partir da qual simplesmente uma ‘posição’, uma ‘escolha’ livre, podem ser realmente externadas. Em vez de estenderem as mãos para pessoas reais, com um rosto, uma história, renegam sua própria humanidade, seu cristianismo, seus rostos, se recusam ao encontro, no infinito.

Isso é de uma crueldade, uma desumanidade incomensuráveis. Não interessa que eu defenda o aborto em casos de risco de vida para a mulher por uma questão humanitária, ou que critique os ‘pró-vida’ pelo seu ‘amor’ seletivo e hipócrita.
É preciso que se diga que o simples fato de muitos negarem a possibilidade do aborto, independente da situação concreta da mulher, ou mediarem seu apoio ao aborto (defendo em situação x, sou contra em situação y por causa de z) por questões morais, mundanas, ‘objetivas’, é movida por um entendimento técnico, racionalista, planificador, desumanizador de toda a questão profundamente humana do milagre da vida que se abre.

Não é sobre ser ‘pró-vida’ ou ‘pró-escolha’.

Não existe escolha no mundo real.
Não existe vida separada das condições concretas de sua realização, nem do contato espiritual profundo entre as pessoas.

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Ser ‘pró-escolha’ é uma monstruosidade nascida da miopia espiritual.

 

Nenhum filho é uma escolha, nada na paternidade e ainda mais na maternidade é uma questão de ‘escolha’. Aliás, devem ser os eventos humanos mais imunes a qualquer redução a escolhas. A mentalidade que se rege moralmente pela concepção da ‘escolha’ é abstrata, individualista e monstruosa.

É abstrata porque a escolha só se instancia a partir de perspectivas isônomas, de consciências não dominadas por qualquer condicionamento social, psíquico, econômico. Isso não existe. Toda a nossa vida mental e espiritual é condicionada por uma série de elementos estruturais, a economia, a sociedade, a ideologia. Não existem escolhas livres reais, ainda mais para as classes baixas, onde estão as clientes mais frequentes de clínicas de aborto. E se não existem escolhas livres para essas mulheres que vivem em tal estado de penúria social e existencial, é porque elas simplesmente não tem escolha, na grande maioria das vezes.

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Um filho, como praticamente tudo do nosso mundo pós-Queda e condicionado infinitamente, não é uma escolha. Um filho é um milagre recebido do alto, algo ‘tradicionado’, um dom divino que exige nossa resposta imediata. Vamos acolher esse dom ou rejeitá-lo? Frequentemente essa resposta não vem nunca de uma escolha, ela vem de uma miríade de situações, eventos, momentos críticos de enfrentamento consciente de estruturas injustas, padrões e narrativas deturpados, e alienações, torturas, sofrimento. Não é fácil.

E nenhuma escolha se faz sozinha, moças. Vocês são responsáveis por tudo e por todos, diante de Deus. Não falo do seu marido. Falo de sua família, que até sua gravidez foi a principal responsável tanto pelas suas misérias sociogenéticas quanto pelos mais preciosos ensinamentos ‘tradicionados’. Falo do compartilhamento de experiências ‘tradicionadas’ pelos seus amigos e colegas de trabalho, escola etc. Falo da responsabilidade de aceitar o legado ‘tradicionado’ pela sociedade, desenvolvê-lo maior, mais amplo, mais enriquecido.

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Isso não é uma escolha, é algo muito mais fundamental que uma escolha supostamente livre, isônoma, diante de alternativas igualmente válidas. É a vivência de crises, de cruzes existenciais, do peso imenso da história e de dons tradicionados, entregues pelos ancestrais. É suportar a dor imensa de estruturas seculares de opressão, violência, que não podem ser desbaratadas com discursos abstratos sobre a liberdade e dignidade humanas, desconstrução, empoderamento.

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Quando se vem frente a frente com mulheres reais, em estruturas sociais reais, em situações concretas, últimas, fundamentais, nossos abortistas não sabem o que fazer. Não sabem o que é um rosto. Não conhecem uma pessoa real. Elas ficam perdidas.

O massacre dos inocentes

Eu já falei muitas vezes que entre aqueles que defendem a descriminalização do aborto (pro-choice) e os que são contra (pro-life) não existe muita diferença. A raiva que manifestam, principalmente um contra o outro, o ódio argumentativo que alimentam, a militância tóxica em torno disso. Tudo isso é muito pecaminoso, apaixonado. Não é a forma correta de se aproximar do assunto.

O aborto é uma questão fundamental, é uma manifestação de uma das questões mais centrais e ‘últimas’ da vida humana: trata-se da vida, da própria vida. Conceituar a vida não é o que está em jogo, delimitá-la etaria e cronologicamente. Esses debates antropológicos encerram questões antropológicas profundas que estão no cerne do embate entre uma visão tradicional do homem e uma visão moderna, um embate que vai muito além do que conservadores e progressistas costumam apresentar.

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Em primeiro lugar, o que leva abortistas a se colocarem do lado de um ‘direito de escolha’, que é uma coisa tão monstruosa, é o seu ‘cuidado’ pela liberdade da mulher, pela sua autodeterminação como sujeito livre, independente de todas as opressões econômicas, sociais, de gênero, patriarcais. A ideia é que a mulher não pode viver segundo narrativas e padrões culturais e comportamentais definidos por culturas e visões de mundo patriarcais, e isto inclui uma redefinição do papel social da mulher, bem como da própria maternidade.

Vocês percebem o cancro? Toda essa narrativa de opressão, desconstrução de personalidade que ignora as relações sociobiológicas mais naturais entre a mãe e seus filhos, o questionamento de autoridade é essencialmente uma postura pós-moderna. Mas ela, antes de ser pós-moderna, é liberal, porque os maiores absurdos cognitivos e intelectuais só são cometidos na defesa da liberdade a autodeterminação da mulher como sujeito, um direito individual.

O abortismo é uma ideologia ou produto ideológico eminentemente liberal.

Nasce das definições liberais sobre papeis sociais.

Nasce da obsessão liberal com direitos individuais.

Está estritamente ligada a uma concepção abstrata de liberdade e de individualidade.

Sendo abstrata, essa concepção não lida com seres humanos reais, com mulheres reais, com histórias e pessoas reais, mas com números, dados, estatísticas, com uma ideia abstrata, conceptualizada da história real do sofrimento feminino. E o faz, galvanizado da culpa que poderia sentir pelo assassinato de inocentes que promove, afinal está do lado da ‘justiça’, do ‘empoderamento da mulher’, da desconstrução de padrões cognitivos e comportamentais patriarcais.

Ou seja, essa monstruosidade se galvaniza do reconhecimento que é monstruoso porque se aliena da realidade com construções mentais abstratas, estas, por sua vez, produtos de uma antropologia e de toda uma visão de mundo modernas, antitradicionais, que negam os dados ‘tradicionados’ das experiências sociais ancestrais, em nome de um futuro idilíco, paradisíaco, mas divorciado de qualquer encontro verdadeiro, de qualquer rosto.

O abortismo pode matar crianças sem ter autoconsciência disso porque ele não lida com seres humanos reais. Ele lida com indivíduos, não com pessoas. Ele é individualista, não hipostático.

Por isso ele mata sem culpa.

Por isso não os julguem tão severamente, não os condenem, eles são tão vítimas da delusão espiritual que é tão característica da mentalidade liberal e individualista da nossa sociedade irresponsável, manipulativa, satânica. Rezemos por eles, pois não sabem o que fazem.

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União no Gólgota

O que mais me fascina na Ortodoxia não é a existência de uma profunda ligação entre os insights de grande pensadores e artistas conservadores e os dogmas da fé, mas como tudo isso faz sentido, se amarra bem. E o que chega a assustar é que essa ‘ligação’ vai muito além de um nexo causal, uma ligação racional entre argumentos, é uma comunhão mística na Verdade transcendente de experiências espirituais autênticas.

E todas vividas na Cruz, no sofrimento, na miséria mais terrível de condições morais e espirituais, materiais e mentais.

É na fraqueza que nos tornamos fortes.

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O maior milagre de nossas vidas será aceitar a oferta mais preciosa, a pérola de grande preço. A caminhada para conquistá-la será longa, árdua e repleta de fracassos, humilhações, sofrimento, de cruzes. Mas no seu termo é pouco dizer que ‘valeu a pena’.

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Para a theosis, o inferno vale a pena. Toda a vida só ‘vale’ alguma coisa com a perspectiva escatológica, eterna, do encontro direto, divinizante, constante, de glória em glória, com Ele. No infinito.

Perenialismo e demais luciferismos

Já devo ter falado o suficiente sobre eurasianismo, porque é um movimento oportunista e de nítidos caracteres fascistas.

Talvez eu devesse falar algo sobre o perenialismo…

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Meu afastamento do tradicionalismo em geral e do perenialismo, em particular, nada tem a ver com minha aproximação do marxismo. Até porque são coisas diferentes.

Aproximei-me do marxismo por conta de estudos em teoria cultural e do discurso em um percurso truncado e também por identificar claros traços fascistas e oportunistas no eurasianismo. Por isso dele me afastei.

Do perenialismo eu me afastei por causa da Ortodoxia, do cristianismo. Realmente, eu talvez não estivesse preparado para enfrentar o furacão de debates se dando entre pessoas que eu respeitava, pessoal e intelectualmente, sobre a natureza anticristã e antitradicional do tradicionalismo. Mas o fato é que mesmo ainda afirmando que as posições de Guenon contra a modernidade, bem como suas exposições e estudos sobre metafísica em geral e sobre as tradições, especialmente a hindu em particular, eram excepcionais, brilhantes, cirúrgicas, isso não muda o fato de que a natureza de sua aproximação desses estudos era dúbia, obscura.

Falar de Schuon nem precisa. É uma coisa simplesmente tóxica. Para constatá-lo, se não bastam seus livros, é só verificar a figura esquálida de Olavo de Carvalho, discípulo direto das deformações mentais da seita schuonista.

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Evola talvez seja ainda mais perigoso porque apesar de suas posições ultrarreacionárias serem claras ele se afirma como claramente antiliberal, diferente das prostituições que Schuon faz com o liberalismo, o hedonismo e seu voluntarismo.

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Independente disso, estamos diante de um tipo de fascismo espiritual. Toda a hierarquização, subordinação mestre-discípulos, cacoetes esotericistas, todas as sistematizações metafísicas que antes obscurecem a essência espiritual das tradições que as revelam, a guerra de ódio contra a modernidade sem nem mesmo um esforço mais profundo na sua compreensão e análise, todos os fanatismos políticos e os desvios espirituais sérios de um tipo de ‘virilidade espiritual’, e mesmo luciferismos extremamente danosos.

A simples ideia fundamental por trás do perenialismo, o de elites espirituais controlando os destinos da humanidade fraca é uma deturpação de todos os sistemas metafísicos tradicionais pelo estupro de sua profunda pessoalidade e centralidade na experiência. Talvez pese muito aqui a influência do nominalismo ocidental, mas há algo mais nocivo e essencial aqui: é profundamente anticristã, até mesmo satânica, luciférica, o espírito de desprezo, de arrogância espiritual, de liderança cega e surda, de controle e dominação pela força da doutrina cega, dos princípios sem vida e sem amor.

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Essa reflexão não foi fruto de dias ou semanas, foi de meses, meses de confrontamento turbulento entre as minhas mais altas e ingênuas esperanças e construções mentais e a realidade torpe apresentada naqueles debates onde, por causa de Guenon, teve até gente que entrou na Igreja, mas muitos também apostataram por causa dele e seus seguidores ‘metafísicos’.

O perenialismo é uma droga forte. Eu só tenho a agradecer a Deus por ter conhecido a Ortodoxia antes disso (foram contatos na Igreja que me levaram a Evola e Guenon, e não o contrário) e por ter tido um contato tão forte com Cristo, uma experiência tão intensa da Sua Presença. Mesmo assim me embriaguei com essa substância tóxica.

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Mas felizmente Cristo era forte e grande demais pra eu trocá-lo por esses livretos elitistas e intelectualizantes de gente que se colocava acima dos santos.

Pitacos sobre conservadorismo político

Um pensamento político conservador se torna cada vez mais aventureirismo quando este deixa de ser uma reflexão cristã (ou religiosa tradicional em geral) sobre a sociedade, o Estado e suas instituições, as relações da primeira com o segundo, e o reflexo dessas relações na consciência. O conservador não deveria querer reformar nada, muito menos querer fazer a roda da história andar para trás. Ele nem deveria oferecer soluções.

Quando a reflexão espiritual sadia de sociedades tradicionais é substituída por ideologias imanentistas, mundanas e materialistas, com todas as suas cargas de noções deturpadas de liberdade e individualidade, secularismos, divórcios racionalistas e idealistas entre energias humanas, forças culturais, cuja essência é permanecerem unas, compostas, consubstanciais umas às outras… o que acontece com o conservador? Ele é como um bússola sem norte, como que algo destituído de seu centro de gravidade. Ele não perde seu norte de imediato, mas o vai perdendo gradualmente conforme vai perdendo o seu norte que o relaciona da sua essência ao mundo exterior, social, político, econômico.

A Cidade de Deus - Agostinho

Nada disso teria acontecido, nem a existência de ideologias imanentistas nem a necessidade histórica delas existirem, se o a ligação dos conservadores com seu Norte não estivesse abalada por essas mediações intermédias de mecanismos cognitivos que se vão desumanizando, se objetificando e tomando o lugar de Cristo.

Mas à parte as aberrações do chamado ‘cristianismo político’, o fato que sempre vai chocar todo progressista, seja de direita seja de esquerda, será que mesmo que saiamos de nossos pedestais de criticismo e admiremos muitas das construções ideológicas das ideologias mundanas e principalmente suas análises de estruturas sociais que também consideramos injustas, ainda assim, negaremos até a morte o imanentismo político.

Não há salvação na imanência.

O eschaton é inimanentizável.

Os paraísos terrestres prometidos pelas ideologias profanas são construções românticas, idealismos incuráveis, nostalgia do paraíso perdido, uma busca mundana por aquilo que não é deste mundo. Não haverá sociedade perfeita livre de injustiça, corrupção e opressão, porque no mundo da Queda (e mesmo antes dela), tais características são seus integrantes essenciais, ainda mais no que toca à natureza humana, a natureza humana fraturada pelo pecado, pela fratura ontológica original.

Não apenas isso, não é o paraíso liberal nem o Éden comunista coisas alcançáveis nesse nosso mundo antes do Juízo Final. Toda a mitologia política e propagandística, todas as guerras sociais e culturais, todas as revoluções armadas e políticas, todo o telos revolucionário de todo progressismo são construções mentais deformadas de uma consciência social estragada pela ausência absoluta de um princípio norteador. Sem Cristo em suas vidas e a sabedoria hierarquizante de uma tradição religiosa com seus entendimentos claros sobre o papel e a natureza de cada nível da realidade, tudo que sobre para a modernidade e sua ciência, sua sabedoria tola e fútil, é a compartimentalização desses níveis por ‘camadas’, sua secularização.

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Talvez essa diferença seja inconciliável entre progressismo e o conservadorismo autêntico.

Não há salvação na imanência.

Não há paraíso na Terra.

Isso é ilusão, produto de tantas outras ilusões modernas, como o da autossuficiência do homem, de sua ciência, sua moral, sua metafísica racionalista, suas religiões inventadas do progresso, da democracia, da justiça social. São belas ideias, mas nada nelas é real, permanente, são apenas fantasmas de sonhos de sonhadores que são mais místicos e fanáticos que as religiões que eles tanto combatem.

O que a Igreja não teria ganhado com um Lênin, um Stalin, um Fidel, ao seu lado?

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Mas a história não anda para trás. E ela, até agora, tem provado que a única revolução que será vencedora é a da nação real, do sacerdócio santo, do Corpo Místico de Cristo.

Apontamentos teológicos em Dostoievski

Dostoievski dizia que seu trabalho era muito mais suor do que inspiração, mas a mentalidade individualista romântica do Ocidente liberal hoje ainda reduz tudo ao seu gênio.

Os soviéticos e demais materialistas, porém, não foram mais longe. Ficaram nos nexos causais, nos procedimentos de trabalho, na construção narrativa, nas pesquisas literárias e sociológicas. Tudo isso existiu, claro, mas o ‘trabalho’ a que Dostô se referia era o sangue e suor derramados na sua consciência.

Os dramas, as tragédias, o interior quebrado, fragmentado, disperso, destroçado das consciências e vozes de seus personagens eram os seus também. Daí ser correto apontar uma grande semelhança entre o escritor e os seus personagens mais quebrados, como Raskolnikov, Ivan Karamazov, Stavroguin, o homem do subsolo em vez dos seus ideais de perfeição espiritual, como Aliócha, Sônia Marmieladova, Michkin.

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Mas o que esses críticos mais sagazes esquecem frequentemente é a diferença entre o destino de Dostô e o de seus personagens quebrados. Dostoievski não é Ivan Karamazov, ele não enlouqueceu. Não se matou como Stavroguin. Não levou suas questões às últimas consequências e persistindo na sua autoexaltação intelectual, como Raskolnikov, até se render, impotente, à roda esmagadora do mundo material e do amor imaterial de uma estranha.

Dostoievski confrontou Smierdiakov no infinito do seu quarto de doente tísico, seu cinismo, sua sinceridade terrível despertando do infinito de um consciência esmagada pela humilhação, pelo amesquinhamento, pela autoflagelação e tortura do seu próximo, da sua alma ‘gêmea’. Smierdiakov nem teria nascido se seu criador não tivesse enfrentado aquele pântano e o atravessado.

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Dostoievski não sabia que respostas dar a Ivan pela boca de Aliócha, mas àquela altura, toda a sua revolta, seu niilismo, já haviam sido apaziguados pela serenidade de Aliócha, pelo seu sofrimento mudo, pela sua cruz de nada dizer, apenas calar, ouvir, ouvir, suportar as dores do irmão como se fossem as próprias. Dostô encontrou Cristo no silêncio de sua alma, na Sua espera paciente e amorosa, na Sua escuta de suas dores e sofrimentos. Ali seu inferno interior foi abalado pela firmeza calma, poderosa, pelo olhar silencioso do Ressuscitado.

 

E o diabo? O diabo de Dostoievski foi confrontado, analisado psicologicamente por toda a vida do escritor. Não apenas isso, mas apesar de todas as derrotas, de todas as humilhações e cruzes que ele impôs ao escritor russo, seja nas penúrias iniciais, nos anos criativos e inspiradores de cativeiro siberiano, seja nos anos tardios de enfrentamento mais direto contra suas paixões e dúvidas, ele o confrontou. Talvez nunca o tenha derrotado, mas para ter aquela independência não apenas artística para transpô-lo para fora de si, de maneira tão crua e psicologicamente cruel… só mesmo sendo um grande artista ou tendo conhecido aquele diabo muito mais do que o próprio Ivan. Ele era e fez as duas coisas.

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Algo similar ocorre com Stavroguin.

As relações complicadas de Dostoievski com Deus e a verdade são muito explicadas na história de Raskolnikov, mas nesse romance muito é deixado em aberto de maneira assaz convencional.

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Não é isso que ocorre em ‘Os Demônios’. Não só o destino de Stavroguin permanece sempre uma incognita, mas sua própria natureza é de um apofaticismo, um mistério que beira as aproximações mais místicas de Dostoievski da psicologia. Uma psicologia realmente patrística, ortodoxa.

É isso que o diálogo com Tikhon revela. Vocês já leram um texto infinito, não um que se interrompe, que é inacabado, mas um que diz as coisas de milhares de formas diferentes e as CONTINUA DIZENDO???? E vocês já leram um texto que não descreve pessoas, visto que pessoas são infinalizáveis, irracionalizáveis, inobjetificáveis, mas que as apresenta tal e qual são na sua manifestação hipostática, isto é, como pessoas???? Um texto que revela ROSTOS???

O encontro entre Stavroguin e Tikhon é assim.

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Talvez seja a experiência literária moderna mais próxima da tentativa de escrever escrituristicamente, de se recriar as Escrituras de maneira profana, revelando subliminarmente as profundezas mais sagradas e espirituais da alma humana.

Porque o encontro entre Stavroguin e Tikhon é um encontro no infinito.

Lidando com a vergonha de sermos humanos

O Pe. Stephen Freeman tem escrito muito no seu blog, Glory to God for All Things, um blog lindo, que eu acompanho, com mensagens e reflexões preciosas sobre a vida espiritual, cultura e história do cristianismo, explicadas e discutidas pastoralmente à luz da Tradição da Igreja, sobre o tema da ‘vergonha’.

O que é a vergonha?
Nós a sentimos como o mais desagradável dos sentimentos humanos, um dos mais humilhantes dos estigmas que nossa luta por buscar o prazer e evitar a dor nos traz. Parece que não há maior sofrimento do que o de quebra, de falha, de miséria, que a vergonha nos traz.

 

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No entanto, não apenas as Escrituras como toda a literatura espiritual monástica nos ensina que é exatamente a vergonha que nos salvará, que é exatamente ela que nos guardará das piores ilusões. Não servirá de escudo contra as paixões, mas a impotência que carrega consigo não é apenas moral, é ontológica.

De fato, como todas as últimas questões, existenciais, com que nos assalta a vida, se trata de algo envolvendo as camadas, aspectos (ô linguagem que sempre nos falha ao trata de Deus e das coisas espirituais!), mais fundamentais, concretas, pessoais, hipostáticas de nossa vida.

 

 

Temos que aprender que não somos salvos em nenhuma justificação moral pessoal, em nenhum ‘merecimento’, em nenhum mérito ou participação jurídica na justiça de Deus, entendida legalisticamente. É o nosso ser mais profundo que é salvo, justificado, remido de maneira ontológica pela participação na vida, sofrimentos, morte e ressurreição do Cristo.

Isso demonstra o quanto há de evangélico na obra dostoievskiana: não há salvação na imanência. Nem na moral, na ciência, no direito, nas instituições, na política, em qualquer ideologia ou sistema socio-econômico pretensamente perfeito e ideal. Não há salvação.

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A salvação, como em todos os personagens de Dostoievski, está no aspecto quebrado, falho, de nossas vidas. Não há mérito algum na vida espiritual exceto nas nossas quedas. É apenas levantando de novo após cada queda que desmentimos o Tentador, quando ele desacredita e calunia nossa coragem, nossa essência espiritual.

Salvamo-nos na queda, no tropeço, nas nossas fraquezas, na misérias mais profunda de nossos esforços espirituais e humanos, quando nossa moral e nossa razão, nossas ilusões são destroçadas pelas ondas do Mar Infinito da Verdade.