Homem e mulher Ele os criou – parte 2

Como sabemos, porém, o primeiro casal humano não viveu à altura desse grande chamado. Não compreendendo os limites e a extensão de sua grande responsabilidade nos atos, Eva comeu da maçã da árvore proibida. Não compreendendo o respeito pela palavra, deturpa as palavras divinas, o próprio Logos e, com uma anti-verdade, uma anti-palavra, leva seu esposo a pecar. Ele, igualmente, caindo nas tentações, não resiste e atenta, pelo amor ao poder, contra a sinceridade das palavras divinas, desrespeita tais palavras, despreza a infinitude de suas palavras e cai. Assim, por sua livre e espontânea vontade, ambos se colocam para fora do Éden, jogam suas vidas fora das Palavras que salvam, e se entregam à vergonha. Pode-se dizer que a vergonha é, como a própria morte, um dos ‘presentes’ de Deus, os ‘garments of skin’, para remediar sua nova situação existencial, lhes proteger contra o pior de sua situação. 

temptation2

No Éden toda a sua estrutura teo-antropológica se dirigia a comunhão consigo mesmos, um com o outro, com toda a Natureza e com Deus. Seu coração era puro e livre do pecado, visto que seu nous se fixava apenas nas coisas celestes, nas energias incriadas, as quais buscavam intelectualmente para se purificarem e se manterem limpos de todo pensamento que afastasse sua noesis dos degraus místicos ascensionais que os levariam a patamares mais e mais elevados da contemplação divina. A Queda, porém, tem dois efeitos devastadores sobre esse horizonte espiritual.

O primeiro é a queda antropológica, que é consequência do obscurecimento do nous advinda já de um obscurecimento que levou ao pecado. Suas vontades se desviaram da pureza ao deixar de se fixar nas energias divinas e pensar no poder e sabedoria advindos do fruto proibido, deixaram-se levar pelas anti-palavras da serpente. A partir do obscurecimento do nous, dos olhos da alma, toda a vida moral do homem se encontra em um estado de prostração, ele não é mais capaz de usar seus sentidos da maneira correta e a avaliação axiológica que ele faz das coisas, das pessoas, das relações é sempre deficiente, falha. Ele sempre deixa de ver bem as coisas, algumas não vê de forma alguma e frequentemente vê mais do que está ali, do que realmente existe. Seus julgamentos sobre a realidade se atrofiam e sua consciência vai se afastando do nous, turvado este pela nuvem escura do pecado. Essa característica nós herdamos também, mesmo que não sejamos co-responsáveis pelo pecado em si, como ensinam as teologias ocidentais. É desse obscurecimento que nossa vontade pura, livre, racional, criada por Deus se encontra como cativa, limitada, cega e o que dirige de fato nossa vida é a vontade chamada ‘gnômica’, uma deturpação da vontade original, nascida do estado de cegueira ou miopia moral.

God_judging_adam_blake_1795

O segundo é a queda cósmica, estritamente ligada à queda antropológica, porque a estrutura cósmica é consubstancial à estrutura antropológica. Ambas são teológicas, no sentido de terem sua fonte, seu fim e sua origem essencial em Deus (Theos), mas se inter-relacionam de maneira diferente. O homem é um microcosmo. Ele, em seus atributos de essencialidade, relacionalidade, sua face única e relacionamentos que são inaugurados a partir do valor do outro, simboliza toda a unidade possível de almas reunidas em um único valor, sentimento, poder. Ele é o próprio símbolo do mundo. Inversamente, o cosmo, nas suas inter-conexões, combinações e disposições ontológicas apresentadas, dispostas, espraiadas em estreita colaboração e presença dos múltiplos logoi, vive como um corpo humano, um organismo vivo e apresentando diversos níveis de autoconsciência à proporção da variedade de seus níveis de enticidade, de existencialidade, vivência de infra e superestruturas. Essa unidade não é qualquer unidade, mas é feita, em diversos níveis, à imagem da unidade hipostática do homem e das Hipóstases da Santíssima Trindade.

Em outras palavras, iniciando com o batismo e o casamento e encerrando na sublimação de todas as potencialidades espirituais no Juízo, a ascensão do nous para Deus é realizada não apesar do mundo, mas junto com o mundo, reunindo todas as virtudes no mundo, procurando salvá-lo. Essa é a atitude de um São Paulo que afirmava que preferia jogar a alma no inferno se pudesse, com esse ato, salvar todos os seus irmãos queridos. É esse o sentido da restauração universal de todas as coisas em Cristo, é a ação do homem como jardineiro, como Ser-do-Meio, nem anjo nem demônio, de reconciliar todas as diferenças e oposições em Cristo, sublimando todos os homens e o mundo na Unidade Hipostática, através da ascensão deificante.

Que não sejamos hipócritas ou covardes para termos medo de dizer que é a sexualidade onde se realiza  mais plenamente essa unidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s