Homem e mulher Ele os criou – parte 1

Conforme nos ensina o Gênesis, o homem vivia originalmente em um estado de perfeição, onde não lhe faltava alimento, onde ele não sentia necessidade de se vestir por não possuir vergonha, onde ele era feliz, autossuficiente, e se bastava a si mesmo. Apesar de ser uma criatura que parecia se bastar a si mesmo, Deus via a solidão no homem e, como a mais eminente das instâncias de relacionalidade, comunhão, participação conjunta, o Deus Triuno quis estender ao homem também a participação na sua vida relacional de maneira mais direta, através da mulher. Sendo feito à Sua imagem e semelhança, era natural que o homem possuísse em si o mesmo universo de Amor e desejasse um igual para compartilhar de suas riquezas físicas, mentais, espirituais e intelectuais. Refletindo sobre isso Deus lhe deu uma companheira idônea, a mulher, que lhe seria consorte, amiga fiel e seu amor pelo resto de sua vida, e para lhe garantir a descendência. Criou-a de suas costelas.

a criação de eva1

É necessário que se esclareçam alguns pontos. Para Deus, no estado edênico de perfeição universal, não era necessário que o homem possuísse prole, afinal, ele era imortal e não tinha necessidade de descendência. O próprio tempo edênico era de uma estrutura qualitativamente diferente da do tempo cósmico após a Queda. É um fato também que a missão da mulher, ao ser companheira do homem, não a subordinava ao seu império, sua vontade, mas que sua essência era a mesma do homem. A mesma estrutura teo-antropológica, a mesma relacionalidade, a mesma tendência à comunhão universal consigo mesma, de si para com o mundo, para com o homem, tudo reunido e subssumido em Deus, a Fonte da comunhão, da vida e da paz. A mulher haveria de ser colaboradora do homem, jamais sua serva. O fato de ser tirada da costela de Adão revelava não uma dependência essencial e estrutural do homem, a negação de sua liberdade, mas o contrário, sua liberdade infinita e incriada, igual à do homem. Ser criada das costelas do homem reafirmava sua consubstancialidade com o homem, a comunhão de seus destinos, de suas almas, a unicidade de seus corações e corpos consignados em uma união espiritual.

Não sendo o homem uma entidade puramente espiritual que se encerra em um corpo, nem uma pura materialidade a quem a alma não passaria de um princípio de vida orgânica, sua unicidade relacional, pessoal, hipostática, está justamente na unidade de corpo e alma subssumida no coração, a base da sua unidade hipostática. Da mesma forma ocorre com a mulher, sua comunhão e vivência para o outro se encontram nessa unidade de almas diferentes vindas da mesma matriz divina, do mesmo corpo. Na verdade dizer que são ‘um só corpo e uma só carne’ já anuncia profeticamente a vinda do Deus-Homem e seu projeto de salvação, a missão da Igreja como hospital divino-humano, militante e triunfante, o Corpo de Cristo. O mesmo Corpo que nasceu, viveu, sofreu, morreu e ressuscitou continua vivo na Igreja, Seu Corpo Místico, em uma unidade. É a esse grande e sagrado chamado o que foi dirigido à primeira mulher e ao primeiro homem. Esse chamado é feito para ambos vivê-lo em comunhão, em uma entrega total de um ao outro, um sacrifício que prefigura a Paixão de Cristo na Cruz, e que dá o tom da relacionalidade humana. Positivado por Deus e Suas relações hipostáticas a relacionalidade do homem, que só se encontra, só se revela no outro, é inaugurada pelo Ato de Criação mas encontra sua primeira grande manifestação no amor conjugal.

A gloriosa ascensão em direção à contemplação e participação nas energias divinas incriadas tem na comunhão no amor e no sacrifício conjugais sua mais alta e sublime expressão.

 

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