Esboços de antropologia teológica

A antropologia teológica é uma área, ou disciplina teológica que busca compreender o homem em sua natureza essencial, isto é, o homem enquanto homem, não enquanto sujeito histórico, pecador em necessidade de graça, agente econômico, elemento ontológico, ou outra conceituação ou aspecto da vida humana que se queira enquadrar, a depender do recorte da realidade ou da ciência. Claro que no espectro amplo da antropologia nenhum desses recortes ou aspectos são negligenciados, mas retomados e assumidos em uma síntese englobante, a se focalizar nas construções culturais do conceito de homem, sua construção socio-cultural de sua sua própria humanidade. A antropologia teológica assume esse compromisso mas desloca o centro axiológico da cultura para o da metafísica, isto é, sem deixar de lado o homem enquanto sujeito de uma coletividade social e produtor e reprodutor de cultura, vincular sua humanidade a um dado da Revelação: sua criação à imagem e semelhança de Deus.

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A Tradição da Igreja nos relata que o modelo da perfeita comunhão está no seio das divinas relações hipostáticas, em Sua relacionalidade, a vida eterna de comunhão da Santíssima Trindade, onde as Pessoas, ou Hipóstases, vivem uma relação de eternamente Se doarem umas às outras mas sem jamais perderem sua essência. Aliás, a Supraessencialidade da Trindade não está circunscrita a essa Unidade fundamental, e não deixa de revelar as formas próprias de Ser (Hypostasis) de cada Pessoa. Esse modelo é o que uma das Hipóstases, o Logos, imprime à Criação, de modo que não só o homem, mas todos os elementos do Mundo se comportam, agem, vivem em uma potencialidade para a comunhão, a interdependência, a mesma unidade fraterna e holística na diversidade da multiplicidade de seus elementos. Não poderia ser de outra forma, afinal o Logos distribui a essência a cada ser, a cada ente é atribuído um logos, uma ratio, uma razão de ser que é tanto sua essência quanto sua teleologia, a finalidade encarnada em um valor.

Existem miríades inumeráveis desses logoi, que instancializam a existência, marcam a enticidade do ser, sua finalidade, bem como instauram no mundo a objetividade de uma série de relações e contatos necessários entre os múltiplos entes. Relações entre gênero e espécie, estrutura e número, matéria e forma, todas as mais diversas combinações de estruturas ontológicas que possibilitam a diversidade do Ser em suas múltiplas formas advém dos logoi das coisas criadas, todos energias divinas incriadas, ‘partes’ do infinito Poder, Amor, Misericórdia divinas, todos Nomes de Deus que fundam o mundo, o marcam e nele se estabelecem primordialmente. A Justiça divina está na proporcionalidade transcendente dessas organizações e combinações ontológicas.

Assim é que a Criação se move em direção à sua perfeição e sublimação no Ser, bem como o homem. O homem também é criado com um logos, e participa, como todas as outras coisas em uma grande variedade de reinos, estruturas, naturezas ônticas diversas. A diferença do homem para os animais e coisas é que ele não apenas participa passivamente nem é a sua vida como a dos animais. Sua vida é uma vida espiritual, sendo seu composto substancial a essência de sua pessoa, de sua hipóstase humana. Pode-se mesmo dizer que a pessoa humana, por ser feita à imagem e semelhança de Deus, tem impressa mais diretamente que em seu logoi a mesma relacionalidade intratrinitária das Hipóstases divinas, onde seu substrato material, o corpo, se comunica com sua vida espiritual da alma em uma unidade hipostática que compõe o homem, centrada no coração. Não o órgão do corpo humano, mas a sede de seu poder espiritual, a essência da sua hipóstase, o símbolo de sua pessoalidade e personalidade. A mente humana, longe ser mera abstração de suas faculdades neuromentais, a elas dirige transcendentalmente como olhos da alma, o nous. O nous é mais do que uma faculdade da alma, é a sede do sentido direcionado da alma, imanente à sua pessoalidade consciente. Como o coração é o centro do sentido direcionante da alma, transcendente à pessoalidade consciente à medida que é ele que instaura essa pessoalidade consciente como fundamento da união hipostática.

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Para exemplificarmos esse ponto, pensemos na Encarnação do Logos em Jesus Cristo. Conforme os ensinamentos dos Santos Padres e dos Santos Concílios Ecumênicos, temos que Cristo possui duas naturezas, uma humana e uma divina, bem como duas vontades, uma humana e uma divina. Nem as naturezas se anulam ou uma absorve a outra, permanecendo sempre distintas mas unidades em um composto, nem algo de diferente se diga das vontades. Mas algo as une, algo que não lhes é externo, mas é da natureza mesma da humanidade de Cristo, do Deus-homem. É a unidade hipostática que garante, à parte da impossibilidade de composição de elementos tão heterogêneos, um humano, mortal, criado e um divino, imortal, incriado, que esses elementos possam se unir na unidade de uma Pessoa, uma Hipóstase divino-humana. Assim se realizam os desígnios dos profetas e as teses da teologia natural provendo que a pessoalidade hipostática do homem, na união de corpo e alma no coração, venha a compor com a pessoalidade hipostática divina, na união de Pai, Filho e Espírito Santo, indistintamente presentes na Encarnação. Não basta uma mera energia divina a insuflar o homem pronto, já criado, a pessoa formada, nem que uma das Hipóstases divinas venha a compartilhar da unidade substancial no coração da pessoa humana, como tantas vezes o Espírito Santo fez ao visitar os profetas do Antigo Testamento. Para uma autêntica Encarnação, para a realização do desígnio divino de salvação da humanidade seria preciso a união total e hipostática dos dois, Deus e homem, Deus no auge da complexidade de suas relações inter-trinitárias, e o homem, em sua relacionalidade hipostática centrada no coração, em uma nova Hipóstase, um encontro infinito entre o homem com toda a sua riqueza de sua pessoa e a infinitude trinitária de Deus, na Pessoa do Deus-Homem.

Embora tenhamos dado as características gerais da estrutura teo-antropológica do homem, na verdade ela ainda se apresenta de maneira estática, portanto, incompleta. Ainda não colocamos as alterações em sua dinâmicas além das mutações estruturais advindas do pecado pelas quais essa estrutura passou. Algumas pinceladas cosmológicas também precisam ser dadas.

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