Respeitem a Palavra

oracao-amizade

Venho insistindo muito em um ponto que eu considero fulcral para a convivência humana e que vem sendo vilipendiado no Brasil nos últimos meses, particularmente por conta da polarização política a que estamos assistindo. Esse ponto é o respeito à palavra.

A palavra não é uma simples unidade gramatical de sentido, um referencial gráfico ou verbal, um signo. Ela pode ser tudo isso mas o sentido que quero dar à palavra aqui é de algo essencialmente metafísico, uma instância inauguradora de valor, um valor em si e mais do que um valor. A palavra é o sinal exterior da nossa vida interior, mais íntima, é a vida da troca de vivências, é o símbolo do compartilhamento de existências, de vidas que, como não posso deixar de afirmar sempre, só se dão, só se inauguram a partir do outro.

Entendimento característico da teologia trinitária na Ortodoxia é o da relacionalidade. Não existe instância de Ser mais transcendente, principial e que manifesta diretamente o valor, o dever-ser do nosso ser-no-mundo como Deus, exemplarmente a Trindade cristã. Em sua essência supraessencial, Deus se manifesta como o valor máximo da relacionalidade, da alteridade, do valor do Outro. Deus Pai gera pré-eternamente o Deus Filho, como Dele procede pré-eternamente o Espírito Santo. Essas relações entre as pessoas, que a Tradição convencionou chamar de relações hipostáticas, não se dão por nenhuma necessidade lógica, não são circunscritas por relações outras, não são relações derivadas nem que venham de outra fonte que não de si mesmas. A extrema igualdade das Três Pessoas da Santíssima Trindade não fere a monarquia do Pai, Sua supremacia, mas coloca um elo entre as Pessoas, um elo que não é de natureza analogicamente emocional nem deriva de outro fator que não de uma relacionalidade do dom, nem é um elo válido em si mesmo, mas é um elo-relação que é eterno e eternamente vinculado à total gratuidade.

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Cada um das Hipóstases divinas se entrega à outra nessa relação divina, se comunica, doando o seu Ser total ao outro, compondo um Hiper-Ser trinitário, que transcende o Ser não apenas enquanto sua Causa Incausada, mas como um Intra-Ser que É na medida em que se comunica, se dá. Essa comunhão não é um simples compartilhamento de gostos psicológicos, de características pessoais e atributos ontológicos, mas é sua sublimação em uma Unidade transcendente. As diferenças individuais não se anulam, mas se completam, se complementam nessa unidade superior, onde a comunhão é colocar em comum os atributos, sem que eles deixem de ser atributos hipostáticos, pessoais. Diríamos até que o próprio conceito de pessoa que a teologia trinitária revela é tributário dessa individualidade que não é individual, mas hipostática, ou seja, revelando a substância como revelação de comunhão, de relação.

Disso procede uma série de aplicações na antropologia e sociologia teológicas, na eclesiologia, no Direito, na teologia do ícone, mas para o que nos interessa aqui é que uma das Hipóstases divinas, o Filho, nos revela a dimensão a partir do qual essa comunhão se pode iniciar. Claro que o Filho não revela apenas o começo da nossa caminhada, mas igualmente seu fim, diríamos até que Ele é esse fim, mas para o que nos propomos é preciso que se diga que não é à toa que Ele é chamado de o Verbo de Deus, o Logos divino.

O Logos é a Palavra dita antes do tempo e que origina o tempo, é a Palavra dita irremediavelmente, de forma irrepetível, única, a Palavra que cria o mundo. No relato do Gênesis a Criação se desenrola a partir da Palavra que ordena, comanda, faz. Essa palavra não volta atrás, é firme, mas não é isolada, ela mais revela da relacionalidade trinitária e põe em evidência a teleologia, o sentido do destino humano como co-criador, junto com Deus. Essa Palavra vem acompanhada de Bondade, porque Ela é boa e porque tudo que ela faz é Bom. Pela comunicação essencialista de suas energias incriadas, suas potências seminais e deificantes, o Verbo comunica a estrutura de Seu Ser bondoso, Sua misericórdia, Seu amor, seu Ser-como-Dom através de uma Criação firmada na comunhão, na interdependência cósmica de todas as coisas, da vida mesma do Ser como a de uma abertura existencial ao outro.

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A consequência principal dessa metafísica da Palavra é afirmar como é sagrada a palavra, como ela reflete, assumindo a múltipla variedade linguística de suas formas de expressão e verbalização, um valor fundamental, ou melhor, uma ‘coisa’ que possibilita mesmo o próprio valor ser afirmado. Não se afirme que o valor seja imanente ao mundo historico-cultural, que ele não o transcenda essencialmente como aquele instância espiritual orientadora e direcionadora de sentido, mas que se completa, se integra no mundo, a partir dessa encarnação historico-cultural. Relacionando esse dado aos dados da antropologia teológica temos que a sacralidade da Palavra traz consequências morais sérias a todos os habitantes da História e da Cultura que só conseguem expressar seus valores, reforçá-los, dotá-los de coercibilidade com vistas a um fim ético-moral, se e somente se tais forem feitos pela palavra.

O elemento principal dessa teologia da Palavra é crer que se é verdade que todos os meus contornos exteriores de corporalidade, interiores de temporalidade e espirituais de sentido, são todos inaugurados, colocados, positivados pela experiencia aberta do mundo do outro, da face do outro, do encontro no infinito epistemológico do outro, a palavra é a que inaugura, instancia essa minha presença-no-mundo pelo outro. É a palavra do outro que permite o meu distanciamento da coisificação que desumaniza o outro, que me desumaniza. É a palavra do outro que me aproxima do valor verdadeiro de ser humano quando o revela, nu, em sua integralidade perante mim. É a palavra do outro que traz sérias responsabilidades e um alto chamado ético para os limites da minha própria palavra.

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Por isso a necessidade urgente, nesses dias polarizantes, difíceis, de comunicação truncada, sentidos múltiplos disparados por múltiplas linguagens, discursos ideológicos conflitantes, de uma ética do discurso, mas não qualquer ética. É preciso respeitar a palavra do outro, o seu espaço, é preciso ver o Verbo de Deus em todas as manifestações comunicativas do outro. É necessário ver como a relacionalidade trinitária é atualizada na relacionalidade do mundo humano, em nossas relações, nossos sonhos e projetos, na nossa vida social, política e cultural. No entanto, o que vemos? A vilipendiação do discurso do outro, a diminuição da pessoa alheia a mim e ao meu universo político pelo ataque às suas palavras, a deturpação de seus dizeres, a falta de contextualização. O que vemos é a humilhação, a desumanização do próximo, sua demonização a partir de narrativas políticas que distorcem a realidade. Um divórcio entre a Palavra e a Verdade, que acaba se tornando a palavra mentirosa, imoral destruidora de vínculos, uma anti-palavra, contra-palavra.

É muito questionável ver que quem defende o direito da palavra alheia não consegue sequer colocar as condições de possibilidade de um debate, de uma discussão como algo válido. Discute-se até mesmo a possibilidade de uma opinião contrária. Quem morre com essa morte da palavra é o homem, o ser humano. Deixando de respeitar a palavra do outro, ele o coisifica, desumaniza, o retira de sua essencialidade axiológica. A morte da palavra é começo da morte da civilização, da própria humanidade, digo até que essa morte afeta até mesmo o mundo cósmico, a depender estruturalmente dessa essencialidade verbal do Logos, que o mantém no Ser, na proferição eterna da Palavra Divina, o Logos. A reflexão que devemos fazer é que a palavra não é mesmo só uma palavra, algo que se pode jogar ao vento. Não! É uma instância fundamental do relacionamento entre os homens, da vida em sociedade, é muito mais que um elemento importante no discurso, ela é a própria possibilidade do discurso e a Ratio central de toda a existência. Respeitem a palavra! Sede honestos, ouçam a palavra do outro, a acolham no coração como Cristo acolheu todo o mundo pecador e decaído em Seu coração no patíbulo, como Ele desceu ao Hades para salvar essa humanidade perdida. Nós, homens e mulheres de boa vontade, temos essa responsabilidade fundamental de zelar pela palavra. Respeitem a palavra!

 

 

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