Um encontro histórico

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O encontro entre Sua Santidade Kirill I, Patriarca de Moscou e Toda a Rus, e o Papa romano é um acontecimento histórico. É histórico porque o cisma romano ocorreu em 1054, quando ainda não havia propriamente uma Igreja russa, mas antes comunidades esparsas do que restara dos empreendimentos evangelizadores dos Apóstolos-para-os-Eslavos São Cirilo (que dá nome o Patriarca) e São Metódio e da vigorosa cristianização de Santa Olga (séc. IX) e São Vladimir de Kiev (século X).
Nunca houve uma ruptura formal entre Roma e Moscou. Moscou é uma filha eclesiástica da Igreja já cortada de Roma, que nos abandonou. Ela não conheceu a Roma ortodoxa, glorios em sua beleza espiritual e ortodoxia doutrinária, em sua pureza inconsútil. Por outro lado ela não conheceu a Roma herética, a Roma orgulhosa e arrogantes e suas exigências de prerrogativas monárquicas, suas infalibilidades fabricadas, sua substituição do providencialismo ortodoxo pelo gládio de César empunhado por reis-sacerdotes usurpadores do poder terreno, a Roma blasfema com suas invenções de doutrinas eclesiológicas e metafísicas mundanas, a Roma das aventuras ontológicas, a Roma da guerra, da perseguição, da Cruzada onde os irmãos latinos e bárbaros e seu cristianismo ocidental, brutal, desconhecido, sem amor mas apenas com lei e uma lei anticristã, vazia de verdade e insubstancial de amor pessoal, de perdão e misericórdia. A Roma fratricida, capturada pelos francos, distorcida pelo vil poder terreno, esta, também, Moscou não conheceu.
Podemos dizer que Moscou e Roma foram estranhos durante muito tempo, por um milênio aproximadamente. Dificilmente são irmãos.
Historicamente, porém, houveram muitos contatos distantes, mas raramente eram oficiais. Durante alguns séculos esses contatos não foram além das tentativas papais de eclipsar o poder bizantino cada vez mais e particularmente o de seu herdeiro mais vigoroso, o do tsarado, do reino da Rússia, da Rus Ocidental e, posteriormente, do Império Russo. Em diversos momentos Roma se aliou a príncipes do mundo para tentar atacar a liberdade dos filhos de Constantinopla, como as manipulações jesuítas nas cortes europeias e eslavas, a infamante questão da Unia que se prolonga até nossas dias, a invasão insidiosa da mentalidade ocidental e papista sobre o modus operandi teológico das academias russas e seminários, cada vez mais divorciados do lugar de encontro social, histórico, espiritual, místico dos mosteiros.
Todas essas questões históricas não mudam o fato igualmente histórico de que esse encontro, diferente de outros encontros pessoais entre patriarcas russos e papas romanos ter sido um compromisso. Será mesmo? Pois bem, nada foi prometido, nada foi firmado ou acordado em termos canônicos, até porque, mesmo pela sua autoridade dentro da Igreja Ortodoxa Russa, mesmo lá, ela não é absoluta. Diferente da autoridade soberana e absoluta do Papa Francisco sobre toda a Igreja Católica Apostólica Romana, a autoridade do hierarca sobre sua Igreja é circunscrita a uma determinada jurisdição canônica e conciliar no seio da Igreja Russa. Dessa forma muito menos os anátemas que foram proferidos entre os bispos de Roma e de Constantinopla não são de competência do hierarca russo, até pela sua posição nos dípticos, estando muito atrás dos patriarcados muito mais antigos e honoráveis de Constantinopla, Alexandria, Antioquia e Jerusalém.
Mais importante do que questões canônicas, porém, são as questões teológicas, as polêmicas doutrinárias em torno de questões fundamentais como o filioque, o purgatório e a própria recepção dos Concílios. Existe um microcosmo de problemas, de diferenças teológicas e espirituais mais profundas que simplesmente a diferença nas doutrinas, nos costumes litúrgicos, culturais. Roma e Constantinopla são dois mundos diferentes e se assim é, resta imutável o fato de que apesar de todos os diálogos teológicos e ecumênicos estarem avançando esse encontro não nos deixou mais próximos da união. Nos deixou, sim, mais próximos de uma amizade duradoura, de uma fidelidade sincera, de uma honestidade que perdoa, que suporta, que é capaz de enfrentar o estranhamento, a diferença, os séculos de perseguição, de ódio, de medo, de fugas, espionagem, intrigas, perfídia. O que há de histórico é que Roma e Moscou não se encontram como irmãos, mas como dois estranhos, como primos distantes que jamais se conheceram de perto e que, dessa vez parecem estar com os corações ajustados corretamente para o entendimento.
Não precisamos que Roma se torne Uma como nós somos Unos na Igreja Católica e Apostólica para que a verdade de nossa união fraterna, em objetivos sociais, político-eclesiásticos, humanitários, morais. Mas precisamos caminhar como irmãos nesses tempos de desunião, de guerras fratricidas, nesses tempos terríveis, que sejam os últimos! Antes da grande tribulação que nós, mesmo desunidos, mesmo caminhando com identidades diferentes, que possamos caminhar juntos, afinal!
Deus viva e reine em cada um dos seus!
Seja bem vindo ao Brasil, Sua Santidade Kirill I!
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