A Mulher como um Símbolo de Cristo por São Nikolai Velimirovic

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Nosso Senhor descreveu-Se como uma mulher porque as mulheres são mais cuidadosas que os homens com sua propriedade ao manter a casa em ordem e ao receber os visitantes.
As Dez Dracmas:
Você pode acreditar que Cristo, o Salvador, retratou-Se na imagem de uma mulher em duas de Suas parábolas? Uma é a da mulher que tomou três medidas de farinha e fez massa. Mas antes falemos de outra, em que o Senhor nos conta sobre a mulher que tinha dez dracmas e as perdeu. Estas são as mais misteriosas de todas as parábolas do Salvador. Já que a parábola das dracmas perdidas é curta, citamo-la por inteiro.
Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas e perder uma, não acende a lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente até encontrá-la? E encontrando-a, convoca as amigas e vizinhas, e diz: ‘Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que havia perdido!’ (Lucas 15:8-9).
À primeira vista essa parábola parece simples, ou até mesmo ingênua, que não impressiona o leitor da Bíblia. Na verdade, no entanto, o mistério do universo é revelado nessa simples parábola.
Se a tomamos literalmente, ela evoca espanto. A mulher perdeu apenas uma dracma. Mesmo dez dracmas não representam uma grande soma; na verdade, a mulher que tem apenas dez dracmas deve ser de fato muito pobre. Vamos assumir, antes de tudo, que o ato de encontrar a dracma perdida significa um grande ganho para ela. Assim, ainda apresenta um paradoxo, pois como é que uma mulher tão pobre acende lâmpadas, varre a casa e chama todas suas amigas e vizinhas para compartilhar da sua alegria? E tudo por causa de uma dracma! Que perda de tempo acender uma vela e pôr a casa em ordem! Além disso, se ela convida suas amigas ela é obrigada, de acordo com o costume oriental, a oferecer a eles algo para comer e beber, um custo nada baixo para uma pobre mulher. Falhar nisso seria ignorar um costume inalterável.
Um outro ponto importante a notar-se é que ela não convidou apenas uma mulher a quem ofereceria doces, que não envolveria tanto custo. Mas ela convidou muitas amigas e vizinhas, e, mesmo se ela as divertiu modestamente, o custo excederia muito o valor da dracma que ela encontrou. Por que então ela deveria procurar a dracma tão cuidadosamente e alegrar-se ao encontrá-la, apenas para perdê-la de novo de outra forma? Se tentamos entender esta parábola em sentido literal, não se enquadra no nosso cotidiano, mas deixa a impressão de algo exagerado e incompreensível. Então tentemos descobrir seu sentido místico e oculto. Quem é a mulher? E por que é uma mulher e não um homem, quando é mais comum um homem perder dinheiro na rotina? De quem é aquela casa que ela varre e preenche com luz? Quem são suas amigas e vizinhas? Se olhamos para o sentido espiritual da parábola ao invés do literal, devemos encontrar a resposta para aquelas questões. O Senhor disse: buscai e achareis.
A mulher representa o próprio Jesus Cristo, o Filho de Deus. As dez dracmas são Suas. É Ele Quem perdeu uma delas e parte em busca dela. As dracmas não são moedas de ouro ou prata. De acordo com os teólogos ortodoxos, o número dez representa a completude. As nove dracmas não perdidas são as nove ordens dos anjos. O número de anjos está além do conhecimento dos mortais, pois excede nosso poder de cálculo. A dracma perdida representa a humanidade em sua totalidade. Portanto Cristo, o Salvador, desceu dos céus à terra, para Sua casa, e acendeu uma vela, a luz de Sua sabedoria. Ele limpou a casa – ou seja, Ele purificou o mundo da impureza diabólica – e encontrou a dracma perdida, a humanidade errante e perdida. Então Ele chamou Seus amigos e vizinhos (depois Sua gloriosa Ressurreição e Ascensão), ou seja, todas as incontáveis hostes de querubins e serafins, anjos e arcanjos, e os revelou Sua grande alegria. Alegrai-vos comigo, porque encontrei a dracma que havia perdido! significa: encontrei homens para preencher o vazio do Reino dos Céus, causado pela queda dos anjos orgulhosos que se apostaziaram (esqueceram e distanciaram) de Deus. No fim do tempo o número dessas almas encontradas e salvas se tornaram bilhões, ou, na linguagem da Escritura, serão incontáveis como as estrelas no céu e como a areia na praia.
Nosso Senhor descreveu-Se como mulher porque as mulheres são mais cuidadosas que os homens ao olhar por sua propriedade, ao manter a casa em ordem e receber as visitas. Se esta curta parábola, que consiste de apenas duas frases, é explicada desse modo, qual coração não estremece? pois ela contém toda a tragédia do mundo, visível e invisível. Ela explica por que o Filho de Deus veio à terra. Ela lança um raio branco de luz sobre a história da humanidade e sobre a tragédia da existência individual de cada um. Ela nos confronta com uma decisão urgente, porque nossa vida é uma rápida passagem de uma decisão de se queremos ser a dracma perdida encontrada por Cristo, ou não. Cristo nos busca. Esconder-nos-emos dEle ou deixamos que Ele nos encontre antes que a morte nos esconda dEle, do mundo e da vida? É uma questão vital e ela está dentro de nossa vontade de aceitá-lo ou rejeitá-lo. Depois da morte deixará ela de ser uma questão aberta, e então ninguém mais esperará uma resposta de nós.
a criação de eva1
Três Medidas de Farinha
E de novo Jesus disse, “A que compararei o Reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado” (Lucas 13:20-21).
Esta é outra das misteriosas parábolas de Cristo que muitos acham difícil de entender. O tema real tomado do cotidiano é simples e claro. Desde os tempos mais antigos as esposas eram padeiros; elas tomavam a farinha, colocavam-na em bacias, preparavam fermento, amassavam a massa e a assavam. Esta era uma tarefa diária da esposa no Oriente e no Ocidente por milênios. Mas aconteceu que ninguém tomou este simples trabalho como figura ou símbolo do Reino dos Céus. Apenas o Senhor Jesus Cristo, para Quem nada era muito simples e desimportante, tomou esta tarefa e a usou para explicar algo estupendo e extraordinário. Ele poderia pintar-Se como Sua própria mãe no trabalho.
Colocarei as seguintes questões ao leitor da Bíblia. Por que Cristo toma a mulher como Seu exemplo, ao invés do homem, quando os homens foram padeiros durante séculos? E por que o fermento, quando pão sem fermento também era comum? E por que a mulher toma três medidas, e não uma ou duas ou quatro? Finalmente, que conexão ou semelhança há entre o Reino de Deus e o trabalho de cozinha de uma esposa?
Se essas questões não podem ser respondidas, como podemos entender a parábola? Agora, respondê-las sem uma chave espiritual levaria somente a dificuldades. Todas as parábolas lidam com o superficial, mas seu significado real está nas profundezas. Elas apelam ao olho e parecem bastante óbvias, mas elas referem-se ao espírito e ao espiritual. Essa parábola tem uma dupla interpretação espiritual. A primeira tem que ver com as três raças principais da humanidade, a segunda com as três faculdades ou poderes principais da alma humana. Em suma, o que é excelente e incomum nessa parábola é o processo histórico e pessoal da salvação humana.
Depois do Dilúvio, provieram dos filhos de Noé (Sem, Cam e Jafé) três raças da humanidade: os semitas, os camitas e os jafetitas. Estes são as três medidas de farinha nas quais Cristo pôs Seu santo fermento, o Espírito Santo. Significa que Ele veio como Messias e Salvador para todas as raças e nações da humanidade, sem exceção. Assim como uma mulher, com fermento, pode transformar a farinha em pão, Cristo, através do Espírito Santo, transforma os homens normais em crianças de Deus, em habitantes imortais do Reino dos Céus. Este é o motivo, de acordo com o ensinamento ortodoxo, de homens santos serem chamados de anjos terrestres ou homens divinos, porque, sendo “fermentados” pelo Espírito Santo, eles não mais são farinha comum ou biscoitos não-fermentados que deitam sobre a terra, mas são pão fermentado que cresce. De acordo com a Bíblia, o pão sem fermento foi o pão dos escravos, enquanto o pão fermentado era para os homens livres, crianças de Deus. Então, por essa razão a Igreja Ortodoxa usa pão fermentado na Santa Comunhão. O processo de fermentar começou no primeiro Domingo da Trindade ou Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu dos céus para os apóstolos. A partir daquele dia em diante esse processo continuou até os dias de hoje, e continuará até o fim dos tempos, quando todos serão fermentados. Isso, então, é a interpretação histórica da enigmática parábola sobre o padeiro mulher. A segunda interpretação é psicológica e pessoal, e concerne às três faculdades ou poderes da alma humana: o intelecto, o coração e a vontade ou, em outras palavras, o poder de pensar, o poder de sentir e o poder de agir. Essas são as três medidas invisíveis da alma do homem interior. Estes três poderes permanecem totalmente sem fermento, como o pão dos escravos, ou são fermentados com o fermento da malícia e da hipocrisia. Portanto, Cristo contou aos Seus discípulos para tomar cuidado com o fermento dos fariseus, que é hipocrisia, porque esse é o fermento mundano e humano, que enfraquece todos os poderes da alma e a deixa aleijada e doente. Mas Cristo, o Salvador, trouxe à terra um novo fermento para elevar os poderes da alma. Aqueles que recebem este novo e divino fermento através do batismo em nome da Santa Trindade são chamados de filhos e filhas de Deus, o gado do Reino eterno. Eles não morrerão, pois mesmo quando deixarem o corpo, estarão vivos e viverão para sempre. Esse divino fermento os preenche com a luz da razão, o calor do amor divino e a glória das boas obras. Todos os três poderes da alma crescem juntos em harmonia, e ascendem aos céus, para a perfeição. Como disse o Senhor, sejais perfeito como vosso Pai celeste é perfeito.
A mulher foi tomada como modelo e não o homem, e Cristo comparou-Se a um padeiro mulher, porque a mulher enquanto esposa e mãe prepara o pão para a família de maneira amável, enquanto o padeiro homem faz pão para vender. Tudo que Cristo tem feito para a humanidade foi feito de puro amor e, portanto, Ele compara-Se a um padeiro mulher. Essa é a segunda interpretação, mas ambas interpretações dessa parábola estão corretas. Os significados histórico e psicológico derivados dessa simples parábola são como ramificações de um carvalho que cresce para fora de uma bolota, pois é realmente majestoso em sua amplitude histórica e profundo em sua profundeza psicológica.
Nota do blog: Para a tradução ao português das passagens bíblicas utilizamos a versão da Bíblia de Jerusalém, ed. Paulus, 2002.
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