Lidando com a vergonha de sermos humanos

O Pe. Stephen Freeman tem escrito muito no seu blog, Glory to God for All Things, um blog lindo, que eu acompanho, com mensagens e reflexões preciosas sobre a vida espiritual, cultura e história do cristianismo, explicadas e discutidas pastoralmente à luz da Tradição da Igreja, sobre o tema da ‘vergonha’.

O que é a vergonha?
Nós a sentimos como o mais desagradável dos sentimentos humanos, um dos mais humilhantes dos estigmas que nossa luta por buscar o prazer e evitar a dor nos traz. Parece que não há maior sofrimento do que o de quebra, de falha, de miséria, que a vergonha nos traz.

 

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No entanto, não apenas as Escrituras como toda a literatura espiritual monástica nos ensina que é exatamente a vergonha que nos salvará, que é exatamente ela que nos guardará das piores ilusões. Não servirá de escudo contra as paixões, mas a impotência que carrega consigo não é apenas moral, é ontológica.

De fato, como todas as últimas questões, existenciais, com que nos assalta a vida, se trata de algo envolvendo as camadas, aspectos (ô linguagem que sempre nos falha ao trata de Deus e das coisas espirituais!), mais fundamentais, concretas, pessoais, hipostáticas de nossa vida.

 

 

Temos que aprender que não somos salvos em nenhuma justificação moral pessoal, em nenhum ‘merecimento’, em nenhum mérito ou participação jurídica na justiça de Deus, entendida legalisticamente. É o nosso ser mais profundo que é salvo, justificado, remido de maneira ontológica pela participação na vida, sofrimentos, morte e ressurreição do Cristo.

Isso demonstra o quanto há de evangélico na obra dostoievskiana: não há salvação na imanência. Nem na moral, na ciência, no direito, nas instituições, na política, em qualquer ideologia ou sistema socio-econômico pretensamente perfeito e ideal. Não há salvação.

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A salvação, como em todos os personagens de Dostoievski, está no aspecto quebrado, falho, de nossas vidas. Não há mérito algum na vida espiritual exceto nas nossas quedas. É apenas levantando de novo após cada queda que desmentimos o Tentador, quando ele desacredita e calunia nossa coragem, nossa essência espiritual.

Salvamo-nos na queda, no tropeço, nas nossas fraquezas, na misérias mais profunda de nossos esforços espirituais e humanos, quando nossa moral e nossa razão, nossas ilusões são destroçadas pelas ondas do Mar Infinito da Verdade.

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