Apontamentos teológicos em Dostoievski

Dostoievski dizia que seu trabalho era muito mais suor do que inspiração, mas a mentalidade individualista romântica do Ocidente liberal hoje ainda reduz tudo ao seu gênio.

Os soviéticos e demais materialistas, porém, não foram mais longe. Ficaram nos nexos causais, nos procedimentos de trabalho, na construção narrativa, nas pesquisas literárias e sociológicas. Tudo isso existiu, claro, mas o ‘trabalho’ a que Dostô se referia era o sangue e suor derramados na sua consciência.

Os dramas, as tragédias, o interior quebrado, fragmentado, disperso, destroçado das consciências e vozes de seus personagens eram os seus também. Daí ser correto apontar uma grande semelhança entre o escritor e os seus personagens mais quebrados, como Raskolnikov, Ivan Karamazov, Stavroguin, o homem do subsolo em vez dos seus ideais de perfeição espiritual, como Aliócha, Sônia Marmieladova, Michkin.

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Mas o que esses críticos mais sagazes esquecem frequentemente é a diferença entre o destino de Dostô e o de seus personagens quebrados. Dostoievski não é Ivan Karamazov, ele não enlouqueceu. Não se matou como Stavroguin. Não levou suas questões às últimas consequências e persistindo na sua autoexaltação intelectual, como Raskolnikov, até se render, impotente, à roda esmagadora do mundo material e do amor imaterial de uma estranha.

Dostoievski confrontou Smierdiakov no infinito do seu quarto de doente tísico, seu cinismo, sua sinceridade terrível despertando do infinito de um consciência esmagada pela humilhação, pelo amesquinhamento, pela autoflagelação e tortura do seu próximo, da sua alma ‘gêmea’. Smierdiakov nem teria nascido se seu criador não tivesse enfrentado aquele pântano e o atravessado.

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Dostoievski não sabia que respostas dar a Ivan pela boca de Aliócha, mas àquela altura, toda a sua revolta, seu niilismo, já haviam sido apaziguados pela serenidade de Aliócha, pelo seu sofrimento mudo, pela sua cruz de nada dizer, apenas calar, ouvir, ouvir, suportar as dores do irmão como se fossem as próprias. Dostô encontrou Cristo no silêncio de sua alma, na Sua espera paciente e amorosa, na Sua escuta de suas dores e sofrimentos. Ali seu inferno interior foi abalado pela firmeza calma, poderosa, pelo olhar silencioso do Ressuscitado.

 

E o diabo? O diabo de Dostoievski foi confrontado, analisado psicologicamente por toda a vida do escritor. Não apenas isso, mas apesar de todas as derrotas, de todas as humilhações e cruzes que ele impôs ao escritor russo, seja nas penúrias iniciais, nos anos criativos e inspiradores de cativeiro siberiano, seja nos anos tardios de enfrentamento mais direto contra suas paixões e dúvidas, ele o confrontou. Talvez nunca o tenha derrotado, mas para ter aquela independência não apenas artística para transpô-lo para fora de si, de maneira tão crua e psicologicamente cruel… só mesmo sendo um grande artista ou tendo conhecido aquele diabo muito mais do que o próprio Ivan. Ele era e fez as duas coisas.

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Algo similar ocorre com Stavroguin.

As relações complicadas de Dostoievski com Deus e a verdade são muito explicadas na história de Raskolnikov, mas nesse romance muito é deixado em aberto de maneira assaz convencional.

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Não é isso que ocorre em ‘Os Demônios’. Não só o destino de Stavroguin permanece sempre uma incognita, mas sua própria natureza é de um apofaticismo, um mistério que beira as aproximações mais místicas de Dostoievski da psicologia. Uma psicologia realmente patrística, ortodoxa.

É isso que o diálogo com Tikhon revela. Vocês já leram um texto infinito, não um que se interrompe, que é inacabado, mas um que diz as coisas de milhares de formas diferentes e as CONTINUA DIZENDO???? E vocês já leram um texto que não descreve pessoas, visto que pessoas são infinalizáveis, irracionalizáveis, inobjetificáveis, mas que as apresenta tal e qual são na sua manifestação hipostática, isto é, como pessoas???? Um texto que revela ROSTOS???

O encontro entre Stavroguin e Tikhon é assim.

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Talvez seja a experiência literária moderna mais próxima da tentativa de escrever escrituristicamente, de se recriar as Escrituras de maneira profana, revelando subliminarmente as profundezas mais sagradas e espirituais da alma humana.

Porque o encontro entre Stavroguin e Tikhon é um encontro no infinito.

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